Este pequeno país europeu, sede das instituições europeias, frequentemente se apresenta como defensora da paz, especialmente no conflito em andamento entre Kinshasa e os rebeldes. No entanto, ao enviar mais soldados para apoiar as Forças Armadas de la República Democrática do Congo (FARDC) em sua luta, não tem conta a diversidade de grupos e facções que lutam entre si sem um conceito de identidade nacional de impronta europeia. Grande parte dos líderes do AFC/M23 são de facto congoleses ou ruandeses que formaram nalgum momento parte do exército congolês.
No dia 17 de março, o governo belga enviou tropas, tanques e drones para a República Democrática do Congo (RDC) para treinar e reforçar o exército congolês, a FARDC, a milícia Wazalendo e a milícia genocida Hutu formada no Congo, FDLR, para eliminar os rebeldes da AFC/M23, que agora controlam vastas áreas do território no leste do país. Esse tipo de colaboração faz parte dos esforços da Bélgica e da União Europeia para apoiar o fortalecimento das forças armadas do Congo para melhorar a segurança e a estabilidade no país. Entrementes, essa colaboração pode ser controversa, já que o exército congolês tem sido acusado de violações dos direitos humanos em várias ocasiões. Assim, a presença de forças estrangeiras no Congo muitas vezes gerou debates sobre a eficácia e os riscos associados a esse tipo de assistência.
Mais ainda a ajuda europeia (antes desse apoio militar, em 14 de março, o meio de comunicação congolês Actualite removeu um artigo que afirmava que a Bélgica recebeu 20 milhões de euros da UE para “equipar e restaurar” a infraestrutura da 31ª Brigada da URR ), levanta mais questões sobre as razões por trás dessa injeção financeira e militar e, é claro, como esses fundos podem ser alocados para a infraestrutura enquanto o país está enfrentando uma grave crise de segurança na atualidade.
Não obstante, a iniciativa de ajuda belga e subliminarmente comunitária, serve a luta contra os próprios cidadãos congoleses, e promove a guerra civil num país grande mais fraco institucionalmente. Por tanto a pretendida “ajuda” está contradizendo sua própria narrativa de paz. Eles sabem que a única solução duradoura está no diálogo significativo entre as partes em conflito, e não na escalada da intervenção militar. Bélgica tem um triste historial intervencionista na região e o mesmo Leopoldo II, criador do Estado Libre do Congo, que se tornou um dos escândalos internacionais mais infames da virada do século XIX, estaria orgulhoso desta iniciativa.
Oficialmente o M23 está travando uma guerra “existencial” em defesa dos tutsis na região congolesa, e não pretende explorar os recursos minerais da RDC. No entanto, especialistas da ONU indicaram em um relatório de dezembro passado que o AFC/M23 controla a exploração de minas de coltan em Rubaya. Além do coltan, a RDC é rica em ouro, e o M23 tem sido acusado de explorar ilegalmente minas de ouro, principalmente em áreas como Kivu do Norte, para obter lucros. Jazidas de cassiterita (mineral de estanho) e tântalo, altamente valorizados no mercado global, também estão na área controlada pelo M23. Pelo que é prudente aqui dizer que nem tudo que reluz é ouro…

