Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC) Fonte: Wikimedia-MONUSCO

A paz europeia na República Democrática do Congo

A pacífica e democrática Europa não é tão pacifista como aparenta. Por vezes, os exemplos chegam não de um grandes pais como a França. Para o caso atual, neste mês a Bélgica enviou forças especiais para a República Democrática do Congo para ajudar a “treinar” o exército congolês em sua luta contra a milícia de origem ruandesa M23, apoiada por Ruanda, que tomou conta de vastas áreas do território rico em minerais no leste do país.
Liñas de investigación Relacións Internacionais

Este pequeno país europeu, sede das instituições europeias, frequentemente se apresenta como defensora da paz, especialmente no conflito em andamento entre Kinshasa e os rebeldes. No entanto, ao enviar mais soldados para apoiar as Forças Armadas de la República Democrática do Congo (FARDC) em sua luta, não tem conta a diversidade de grupos e facções que lutam entre si sem um conceito de identidade nacional de impronta europeia. Grande parte dos líderes do AFC/M23 são de facto congoleses ou ruandeses que formaram nalgum momento parte do exército congolês.

No dia 17 de março, o governo belga enviou tropas, tanques e drones para a República Democrática do Congo (RDC) para treinar e reforçar o exército congolês, a FARDC, a milícia Wazalendo e a milícia genocida Hutu formada no Congo, FDLR, para eliminar os rebeldes da AFC/M23, que agora controlam vastas áreas do território no leste do país. Esse tipo de colaboração faz parte dos esforços da Bélgica e da União Europeia para apoiar o fortalecimento das forças armadas do Congo para melhorar a segurança e a estabilidade no país. Entrementes, essa colaboração pode ser controversa, já que o exército congolês tem sido acusado de violações dos direitos humanos em várias ocasiões. Assim, a presença de forças estrangeiras no Congo muitas vezes gerou debates sobre a eficácia e os riscos associados a esse tipo de assistência.

Mais ainda a ajuda europeia (antes desse apoio militar, em 14 de março, o meio de comunicação congolês Actualite removeu um artigo que afirmava que a Bélgica recebeu 20 milhões de euros da UE para “equipar e restaurar” a infraestrutura da 31ª Brigada da URR ), levanta mais questões sobre as razões por trás dessa injeção financeira e militar e, é claro, como esses fundos podem ser alocados para a infraestrutura enquanto o país está enfrentando uma grave crise de segurança na atualidade.

Não obstante, a iniciativa de ajuda belga e subliminarmente comunitária, serve a luta contra os próprios cidadãos congoleses, e promove a guerra civil num país grande mais fraco institucionalmente. Por tanto a pretendida “ajuda” está contradizendo sua própria narrativa de paz. Eles sabem que a única solução duradoura está no diálogo significativo entre as partes em conflito, e não na escalada da intervenção militar. Bélgica tem um triste historial intervencionista na região e o mesmo Leopoldo II, criador do Estado Libre do Congo, que se tornou um dos escândalos internacionais mais infames da virada do século XIX, estaria orgulhoso desta iniciativa.

Oficialmente o M23 está travando uma guerra “existencial” em defesa dos tutsis na região congolesa, e não pretende explorar os recursos minerais da RDC. No entanto, especialistas da ONU indicaram em um relatório de dezembro passado que o AFC/M23 controla a exploração de minas de coltan em Rubaya. Além do coltan, a RDC é rica em ouro, e o M23 tem sido acusado de explorar ilegalmente minas de ouro, principalmente em áreas como Kivu do Norte, para obter lucros. Jazidas de cassiterita (mineral de estanho) e tântalo, altamente valorizados no mercado global, também estão na área controlada pelo M23. Pelo que é prudente aqui dizer que nem tudo que reluz é ouro…