Xi Jinping presentou a IGG no marco da cimeira da Organización de Cooperación de Shangai no mes de setembro do 2025, días antes da Asemblea Xeral das Nacións Unidas.

Cimeira em Pequim: a nova ordem internacional em gestação

A recente cimeira em Pequim, que juntou dezenas de líderes mundiais para assinalar os 80 anos da vitória na Segunda Guerra Mundial, foi muito mais do que um desfile militar. O enquadramento, a narrativa e os símbolos escolhidos legitimaram a liderança de Xi Jinping, demonstraram a modernização das forças armadas e reforçaram a imagem da China como vencedor da guerra e garante da ordem internacional pós-1945. O próprio discurso de Xi apresentou o país como “imparável”, ancorando a memória da guerra numa mensagem de que “a paz exige força” e projetando a China como contribuinte para a paz e segurança internacionais. Em termos visuais, a parada mostrou capacidades militares de longo alcance, numa mensagem externa de poder e interna de segurança.
Liñas de investigación Observatório da Política Chinesa
Apartados xeográficos China e o mundo chinês
Palabras chave China OCS Gobernanza global

Internamente, a população chinesa vê reforçados sentimentos nacionalistas e a promessa de segurança e grandeza sob Xi. Externamente, o evento sinalizou solidariedade política e militar com parceiros estratégicos, colocando Pequim no centro de uma “ordem alternativa” em embrião. Para o Ocidente, a mensagem é de dissuasão (“não nos intimidem; temos meios de resposta”) e de resiliência ao cerco. Para o Sul Global, a narrativa é anti-colonial e multipolar, com ênfase na “vitória antifascista de 1945” perante a ascensão de forças de extrema-direita e proto-fascistas. Ao invocar legitimidade histórica, a China procura contestar hegemonias atuais e apresentar-se como voz e plataforma para países que pretendem benefícios numa ordem “não ocidental”.

A centralidade crescente da China decorre também do contexto internacional. Em 2025, as políticas comerciais e a retórica transacional de Washington criaram atritos com aliados europeus e asiáticos, dando a Pequim mais espaço para defender regras do comércio e do direito internacional — ironicamente criadas e mantidas pelo Ocidente desde 1945. O alinhamento com outras potências asiáticas e do Sul Global vem de trás, reforçado pela guerra na Ucrânia e pela Nova Rota da Seda. O resultado é uma ascensão simultaneamente económica, política e militar e uma contestação crescente aos comportamentos ocidentais em matéria de segurança, comércio e desenvolvimento.

A presença de líderes como Putin e Kim não significa uma frente autoritária unida. Os interesses são distintos: a China não quer uma aliança formal; a Coreia do Norte procura quebrar o isolamento; a Rússia quer contornar sanções. Ao colocar estes líderes ao lado de Xi, Pequim pretendeu elevar o seu estatuto, projetando-se como árbitro entre potências nucleares e sinalizando “diplomacia coerciva”: mostrar capacidade para moldar os cálculos de risco dos adversários (Taiwan, EUA, Japão) preservando ambiguidade estratégica.

Entre os presentes, notou-se a participação de Orbán, Vučić e Fico, líderes europeus com fortes relações económicas com Moscovo e Pequim. Estes países pretendem uma solução pacífica para a guerra na Ucrânia e sentem-se prejudicados diariamente pelo conflito, ao mesmo tempo que cultivam “ambiguidade estratégica” em relação aos blocos tradicionais. Esta diversidade de presenças revela um mundo menos alinhado em blocos rígidos, ao contrário do que o Ocidente tem promovido com a sua retórica de Guerra Fria 2.0.

A parada em si não anuncia guerra, mas tem um efeito psicológico. Para os EUA e aliados, servirá de pretexto para reforçar ainda mais a sua presença militar na Ásia-Pacífico — mísseis, pactos regionais, modernização de forças armadas e exercícios conjuntos — alimentando uma espiral de militarização a que a própria China responderá com novos investimentos em segurança. Apesar de Pequim não entrar em guerra há décadas, este tipo de demonstração de capacidades acelera a dinâmica de ação e reação.

Para o resto do mundo, contudo, a China apresenta-se como patrocinadora de uma ordem multipolar que rejeita sanções unilaterais não aprovadas pelas Nações Unidas, que contesta posições ocidentais em matéria de sanções, militarização e violações do direito internacional, e que simultaneamente oferece normas, comércio e tecnologia. Para muitas economias emergentes, Pequim é alternativa e oportunidade: financiamento, infraestruturas, acesso a mercado e um fórum onde não é preciso “escolher lados”.

Em suma, a cimeira de Pequim mostrou uma China confiante, que usa memória histórica, soft power e poder militar para redesenhar o equilíbrio global. Mais do que uma parada, assistimos a uma coreografia calculada para reforçar a legitimidade interna, sinalizar dissuasão externa e afirmar uma narrativa multipolar que procura atrair países cansados de um sistema internacional dominado pelo Ocidente. A reação ocidental será crucial: se continuar a responder com escalada militar e retórica de blocos, reforçará exatamente a dinâmica que mais aproximará o resto do mundo a Pequim.