Em janeiro, o chanceler alemão Merz lançou a ideia de dar passos em frente com os seis privilegiados companheiros, seis pioneiros uma vez mais, como refundadores, através de um mecanismo de cooperação reforçada.
O grupo, alcunhado E-6, formado pela Alemanha, França, Itália, Espanha, Polónia e Países Baixos, não se baseou num processo de convites massivos com rejeições, mas foi desenhado especificamente desde o seu início pela Alemanha e pela França para reunir as seis maiores economias da União Europeia.
Chama a atenção que deixaram fora deste grupo membros fundadores como a Bélgica (o Luxemburgo é um pequeno apêndice da coroa holandesa, no fim de contas), um membro a todas as luzes europeísta, e que, para além de se recusar à expropriação de bens russos pela qual responde pessoalmente, é, no fim de contas, a sede das instituições europeias (e da NATO).
A Europa deve tornar-se numa potência política global, tanto económica como militarmente, afirma o chanceler alemão. A pergunta é: qual adjetivo tem maior peso nesta equação? Qual é o modelo de economia que a Europa pretende? São o militar e o económico assuntos intimamente unidos, ou ainda tem a Europa capacidade de condicionar a agenda global focalizando a atenção em certas indústrias que a tornam indispensável a nível global? Talvez apostemos na Europa numa feitura industrial de corte norte-americano, com o olhar posto no armamento e na coerção internacional, numa fuga para a frente?
O ministro da Economia alemão, Lars Klingbeil (social-democrata do SPD), enviou uma carta aos seus homólogos a convidar para um plano de ação com quatro objetivos que revela as intenções: impulsionar a união dos mercados de capitais, fortalecer o euro — incluindo a criação de um sistema de pagamentos independente do sistema Visa, Mastercard ou SWIFT, que provoca dependência tecnológica —, coordenar o investimento na defesa e assegurar o acesso a matérias-primas críticas. Ao meu parecer, estas metas são os vimes necessários para o cesto da beligerância europeia que calca na Europa as dinâmicas norte-americanas, numa compreensão do mundo do século XXI com as regras do século XIX.
Vejamos. O mercado único de capitais é imprescindível para obter crédito, financiamento com maior fiabilidade e melhores taxas de juro? É isto, endividar-se? Sim. A UE precisa de 500.000 milhões de euros anuais para a transição digital e militar que pretende. E isso, num contexto de cortes e défice dos estados, é sinónimo de dívida. Ao unificar os mercados de capitais, as intenções são boas. É mais fácil ter liquidez com juros menores e com menor dependência dos intermediários bancários. Se além disso estes países forem capazes de controlar as políticas do Banco Central Europeu, tal e como pretende Trump nos EUA, não haverá grande diferença nas maneiras empregadas num e noutro lado do Atlântico.
Contudo, para criar um mercado de capitais conjunto, ficam ainda muitas incógnitas em relação à gestão da fiscalidade, pois não existe uma fazenda comum. Aqui jaz a pedra angular da soberania de cada um destes seis estados que se pretendem pioneiros. Por descer à realidade, penso que Meloni nunca cederia este espaço de soberania, de difícil compreensão entre as suas bases. A possível solução deste problema é o resgate de estados, mas seria inverossímil juntar a dinâmica dos seis pioneiros ao mesmo tempo que se promove um resgate dos seus estados.
Talvez o facto de criar um euro digital tenha mais a ver com a futura viabilidade de uma fazenda coletiva, e do controlo de todos os fluxos monetários, do que com afirmar a credibilidade da moeda. Pois a avaliação das moedas é, em definitivo, o olhar desde o exterior à economia do país que essa moeda representa, e uma economia unificada, controlada tanto nos usos da moeda como na sua quantidade de emissão, com uma única fazenda, seria imprescindível para sustentar um euro forte e credível.
A segunda meta é potenciar o peso político de liderança da UE terminando com a atual estrutura bicéfala por meio da fusão num único cargo das presidências do Conselho Europeu e da Comissão, ocupadas agora por António Costa e Úrsula von der Leyen. Na realidade, ambos os cargos correspondem a dinâmicas distintas. Por um lado, a Comissão atende ao comércio e ao mercado comum, políticas delegadas através de tratados que se impõem definitivamente às normas estatais. O Conselho Europeu atende a políticas de coordenação dos Estados e marca a orientação política e estratégica da União, políticas nas quais os estados são ainda soberanos e exigem maiorias ou unanimidade. Pelo que não se podem refundir ambos os cargos sem recriar a União Europeia e reescrever os seus tratados.
Aventurar-me-ia a dizer que a meta de potenciar o peso político de liderança da UE tem mais a ver com o descrédito que ambas as instituições colhem com as constantes mentiras (roubos de máquinas de lavar roupa, os jardins europeus e demais), para nos envolver numa guerra desnecessária com a Rússia enquanto se omite o genocídio palestiniano, e se coqueteia e improvisa constantemente com determinadas indústrias energéticas (o bluff do hidrogénio), renováveis, farmacêuticas durante a pandemia, automóveis reconvertidas agora em armamentistas, e tudo isso com provas indiciárias de corrupção. Mais do que suspeitas, com o Pfizergate, Qatargate, desaparecimento de fundos destinados à guerra na Ucrânia.
Por fim, a imagem de fraqueza que se projetou com as negociações dos direitos aduaneiros, as provas de vassalagem do conjunto de líderes europeus na presença de Trump e a perda anunciada da Groenlândia contribuíram para um sangramento de credibilidade institucional da UE, que se pretende resgatar com estas ideias peregrinas, sem maior esperança de viabilidade que um golpe de estado continental, coisa pouco provável nestes momentos. Talvez por isso desejem um comando único da União.
Por último, a terceira e quarta metas vão de mãos dadas. Ao concentrar os esforços em armar-se e fomentar a indústria do armamento como eixo fundamental de uma economia coletiva, sem uma economia produtiva complementar e diversificada (como acontece na China, onde produzem todo o tipo de bens, com qualidade, e não só armas), isto é, ser competitivos em algo mais do que armas e turismo, estamos a colocar os argumentos necessários para o fracasso.
Se o descontentamento social cresce e os governos atuais cambaleiam, os estados vão cair nas mãos de governos nacionalistas que anseiam pelos seus distantes passados imperiais e coloniais. Hipotecados numa grande quantidade de gasto em armamento, fornecidos por compras a empresas americanas ou por empresas europeias participadas por fundos de investimento desse país, correrão em busca de um São Bento a quem deitar a culpa dos seus males. Os estados vão ter apenas duas vias de escape: coerção sobre os seus povos ou guerras no exterior. E os minerais críticos estão tanto na origem como no fim da carreira belicista. A sua procura por qualquer meio quando for possível provoca dependência e uma espiral de violência global.
E não nos enganemos. A suficiência tecnológica europeia por detrás de todos os mecanismos eletrónicos é uma falácia. Nenhum F-35 descolará sem a permissão dos EUA. Nenhum computador nem smartphone deixará de transmitir os dados necessários através de algum pegasus oportuno que nos incrimine. A solução também não é a abordagem pirata a um fabricante de chips como Nexperia por causa de serem chineses. Tudo é negligente.
Eu estou a favor de avançar em mais Europa. Mas talvez este caminho escolhido pelo chanceler e pelos seus sócios, o entorno da Black Rock, esteja equivocado. As indústrias competitivas devem partir de energias baratas e de investimento em educação e desenvolvimento, que se negará para apostar em armamento pré-fabricado com licença Lockheed Martin. O que é pior. A crédito.
Em contrapartida, podemos esperar muito mais de um clima de entendimento com os vizinhos, do entendimento diplomático e de grandes áreas de complementaridade económica. Isso acontece na Europa do leste, incluindo prioritariamente Rússia e Bielorrússia, ou no Magrebe. É necessário estabilizar a Líbia, assentar a Tunísia sem a subordinar à ingerência francesa e sentar numa mesa Marrocos e Argélia. Procurar interesses comuns da cooperação e do comércio. Isso não está em conflito com políticas de promoção de uma economia de proximidade, com produção de bens, alimentos e matérias-primas em proximidade, que não precisam de viajar desde a outra parte do planeta, despovoando grandes áreas rurais. Existem fórmulas para assentar ao mesmo tempo e num mesmo território a indústria do queijo e a produção de componentes para aviões, sem deslocar. Mas devem ser dados os insumos suficientes de materiais, energia barata e conhecimento para que assim se faça. Creio que os nossos líderes andam à procura da wunderwaffen, arma milagrosa que resolva todos os problemas europeus, concentrando a nossa atenção nestes quatro temas.
Mas vai ser necessário ir mais além. Temos que deixar de mentir à população com falsos imaginários, com controlo do discurso e da informação que se facilita aos meios, com ânsias de censura que anuncia Von der Leyen e propaganda nos telejornais. Devemos tender pontes para as trocas sociais e mercantis, que o comércio restaure as feridas e promova a prosperidade, e que as decisões dos nossos governantes sejam reformas profundas e não maquilhagens improvisadas para aparentar avanços inexistentes.

