Macau na China. Fonte: Wikipedia

Macau, uma RAE com raízes portuguesas (Especial, primeira parte)

Em dezembro de 2024 será comemorado o 25º aniversário da devolução da ilha de Macau à China por Portugal. No marco desse aniversário, Carolina Aldea Arias, achega um especial para nos aproximar a um dos pontos estratégicos da Grande Bahia...
Apartados xeográficos China e o mundo chinês
Palabras chave Macau lusofonia galeguia

Macao, 澳门 Àomén(em chinês simplificado)é uma Região Administrativa Especial da China. Encontra-se no delta do rio das Pérolas com aceso ao mar da China Meridional que dá a Macau grande importância como porto comercial. A história da região está marcada pela sua situação de comunicação da China continental e das civilizações que aportavam. Não se conhece com exatidão o ano de fundação e há referencias históricas do lugar baixo o nome de Haojing. Porém, algumas fontes sinalam o estabelecimento da região a mediados do século XVI1 na dinastia Ming (s. XIV a XVII) com intenção de tomar parte em rotas por mar da China Meridional.

Em um primeiro momento participou da linha comercial Goa-Melaka-Japão2 e outros lugares de Asia do Sudeste3. As potencias ocidentais começaram a ter presencia na rota e a interessar-se por Macau como aceso à China continental. Os portugueses foram os principais agentes comerciais ocidentais para o mercado da zona de Cantão, incluindo Macau4. Devido à ajuda prestada para combater a piratearia e o benefício obtido do pago de impostos, o governo chinês autorizou o seu assentamento no lugar. Esta presença lusa começou a se acentuar na dinastia Ming com o assentamento de grande número de povoação portuguesa e a chegada de novos produtos por mar, como a batata, o tomate, legumes ou tabaco, trazidos em parte por comerciantes estrangeiros. Nomearam-se comerciantes portugueses e outorgaram concessões e viagens por rotas a estas figuras. Igualmente chegaram missioneiros portugueses que, ao verse desprovidos de fundos do reino de Portugal, começaram a inverter no sector do mercado e produtivo do lugar. O porto começou a ser lugar de produção cultural, cartográfica e literária5 multicultural.

De estes intercâmbios começaram a surgir multilinguismos6 e inclusive obras como o “Dicionário Português-Chinês” sem data nem autoria definida, conservado por M. Ruggieri (1543-1607). Esta obra mostra o intercâmbio de conhecimento dos povos e enquadra-se em uns séculos de florescimento da produção cultural em português relativa à China. Posteriormente com a interrelação de formas idiomáticas, começou a falar-se o patuá, paduá o crioulo Macaense7.

A presença portuguesa tornou-se cada vez mais importante para a região, chegando a ter poder de decisão sobre as relações comerciais e apertura do porto a outros reinos de ocidente8. Assim, no ano 1719, o imperador Kangxi (1662-1722) propõe o lugar como centro da ação comercial ocidental na China, para igualmente a limitar na zona. Acentua-se então o papel de Macau como ponto chave para a entrada de mercadorias trazidas por ocidentais, como o opio. O porto fechou a entrada a estrangeiros em 1760. Esta primeira proibição de entrada de bens e pessoas resultou em matrimónios com povoação chinesa, que potencia a mistura cultural e idiomática. O lugar pretende uma concessão aos estrangeiros, limitando-os à cidade e a controlar em um primeiro momento a sua influenza. Converteram a “fórmula de Macau” em um órgão de controle estrangeiro a beneficiar-se igualmente do intercambio comercial local entre eles.

Porém, continuou a haver importação ilegal de opio trazido da Índia. Gera uma instabilidade política e posteriores conflitos com as potencias ocidentais, as Guerras do Opio (1839-1842 e 1856-1860), que concluem com o território de Hong Kong baixo mando britânico. Este feito pretendeu ser imitado pelos portugueses em Macau. No entanto, é rejeitado pelo imperador chinês. Este feito não é um intento isolado pois as forças portuguesas pretendiam poder sobre o território do início. Não foi até 1849, quando Pina-Cabral marca o começo do período “colonial”9. A nova monarquia constitucional de Portugal (1820) definiu o território de Macau junto com Timor Leste como uma província do reino. Nomeou-se a João Maria Ferreira Amaral como novo governador do território, quem começou a exercer pressão militar sobre o governo e povoação civil. Trocaram assim as formas de governo a as relações entre grupos étnicos, começou um momento de demonstração de poder luso. Entre elas, o órgão central português exigia pagos à povoação chinesa e cometia abusos militares.

Em 1945, trás a segunda guerra mundial e várias tentativas de protesta do povo chinês e Macaense, começaram a considerar-se maneiras de contra restar a ocupação portuguesa. Feitos como o 12-03, revoltas contra o governo da cidade, marca o declive de poder luso. Vitórias legais seguiram estes feitos e em 1976 colocou-se em prática o Estatuto do Estado de Macau, que inaugura uma nova etapa política. Introduziu o sufrágio direto e a independência do conselho legislativo, órgão que posteriormente criou um sistema legislativo próprio. Para 1984 a parte chinesa dominava a legislatura. Os macaenses com sange misto deviam negociar com eles para aceder à legislatura e os portugueses só podiam o fazer se tinham sido escolhidos pelo governo. Ainda assim, para o ano 1996, só uma quarta parte dos residentes de Macau estavam registrados para votar e só o faziam um 60% de eles10. O poder estava sobre todo nas mãos do governador.

Na atualidade, desde 1993 o PCR estipulou uma divisão de poderes na Lei Básica da Região Especial Administrativa de Macau. Porém, os eleitores das câmaras não representam à maioria da povoação11 e a figura do governador continua a concentrar grande parte do poder.

A economia atual da região está dominada pelo ócio noturno e casinos. As zonas de jogo estavam em um princípio controladas por portugueses. Hoje em dia continuam em poder estrangeiro12.

A pesares da história de multiculturalismo, na atualidade os idiomas oficiais são o chinês e o português. O crioulo macaense está criticamente ameaçado de desaparição13. O português, igualmente, não é conhecido pela maioria da povoação, com um pequeno número de falantes.


Bibliografia

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  • Gearing, J. (20 de Abril de 2011). Endangered Language Watch: Macanese. En ALTA: https://www.altalang.com/beyond-words/endangered-language-watch-macanese/
  • Hao, Zhidong (2011). Macau History and Society. Hong Kong: Hong Kong University Press, 2011. XVII + 294 pp. ISBN 978-988-8028-54-2. The China Quarterly, 208, 1060-1062. En: https://books.google.es/books?hl=ptPT&lr&id=LP9q1dzVRYQC&oi=fnd&pg=PR7&dq=macau&ots=ZIz8zfgld&sig=8CW0MNbN2FABElLMtGF3DgdH2jQ&redir_esc=y&pli=1#v=onepage&q&f=true
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Notas