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O papel da Turquia na geopolítica global: entre o Oriente e o Ocidente (I) Introdução à sua política nacional e internacional

A série -O papel da Turquia na geopolítica global: entre o Oriente e o Ocidente- analisa os desenvolvimentos internos da Turquia e a sua projeção externa. Através de diferentes episódios, serão examinados: o seu papel como potência regional, as suas relações com actores-chave e a sua posição ambivalente entre a Europa, a Ásia e o Médio Oriente, com o objectivo de compreender o seu papel no actual panorama internacional.
Apartados xeográficos Europa Ásia
Palabras chave Turquía Erdogan

Transformações institucionais, tensões internas e reconfiguração geopolítica na Turquia contemporânea

Após a dissolução do Império Otomano, a Turquia foi constituída como república em 1923, sob a liderança de Mustafa Kemal Atatürk. Esse processo fundacional se sustentou em três pilares ideológicos fundamentais: o laicismo, o nacionalismo e a modernização. Atatürk promoveu uma transformação institucional e cultural voltada para o Ocidente, estabelecendo as bases de uma república secular que contrastava com outros países de maioria muçulmana, projetando a Turquia como um modelo de modernidade na região. 

Devido à sua localização estratégica entre Euripa e a Ásia, a Turquia é frequentemente descrita como uma ponte entre civilizações. No entanto, Meliha Altunişik propõe uma visão alternativa, na qual a Turquia não é apenas um intermediário geográfico, mas sim um ator central com ambições próprias no cenário internacional.

Desde o final do século XX, a Turquia passou por uma transição do modelo Kemalista para um sistema multipartidário mais dinâmico. O ponto de inflexão ocorreu en 2002 com a chegada ao poder do Partido da Justiça e desenvolvimento (AKP), que se apresentpu como uma força reformista con raíces no islamismo moderado. Por meio de reformas econômicas e políticas que, em seus primeiros anos, aproximaram o país dos padrões europeus. 

Ao longo do tempo, o caráter do sistema político turco se transformou. A reforma constitucional de 2017, que instaurou um sistema presidencialista, centralizou o poder nas mãos do presidente e enfraqueceu o equilíbrio institucional. As manifestações do Parque Gezi, em 2013, e a tentativa de golpe de Estado em 2016 desencadearam respostas autoritárias por parte do governo, debilitando os princípios fundamentais do Estado de Direito.

A Turquia enfrenta múltiplas tensões internas, entre elas a polarização política, a crise institucional e a questão curda. Por um lado, destacam-se as divisões entre sectores laicistas e religiosos; por outro, as fraturas entre as elites urbanas e as regiões periféricas configuram um clima político altamente fragmentado. Nesse contexto, a relação do estado com as minorías étnicas e religiosas –em particular com a população curda– tem sido um foco persistente de tensões e conflitos.

Desde a década de 1920, o Estado turco reprimiu duramente as revoltas curdas, aplicando políticas de assimilação cultural e linguística. A criação do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), em 1978, marcou o início de um conflito armado que, apesar de múltiplas tentativas de pacificação, continua sendo um dos principais desafios para a segurança e a coesão nacional. Paralelamente, o enfraquecimento das liberdades civis, da independência judicial e do pluralismo midiático tem gerado preocupações tanto no âmbito interno quanto no cenário internacional.

Da política nacional à ambição internacional: a Turquia no cenário global 

No plano internacional, a Turquia tem buscado redefinir seu papel por meio de uma política externa mais proativa e multidimensional. Inspirada nas ideias de Ahmet Davutoğlu, a orientação turca tem se estruturado em torno de princípios como a resolução pacífica de conflitos, a diversificação de alianças e a promoção da liderança regional. Essa guiñada estratégia levou o país a desempenhar papeis de mediação no Oriente Médio e a estreitar seus laços com potências emergentes. 

Contudo, essa ambição tem gerado fricções com seus aliados tradicionais, especialmente com a OTAN e a União Europeia. A aquisição do sistema de defesa antiaérea ruso S-400, as intervenções militares na Síria e na Líbia, e os conflitos no Meditterrâneo Oriental suscitaram críticas e sanções por parte de atores ocidentais. Apesar disso, a Turquia continua sendo um interlocutor-chave para a União Europeia, particularmente em questões migratórias e de segurança regional. 

A modernização da União Aduaneira entre Turquia e União Europeia, condicionada a avanços em direitos fundamentais e a uma maior convergência em política internacional, continua gerando tensões entre ambas as partes. No entanto, reconhecem-se os interesses compartilhados, os quais –apesar das divergências– continuam a motivar um diálogo pautado em objetivos estratégicos mútuos. 

Nesse contexto de tensões estruturais e fricções diplomáticas, a recente detenção de Ekrem Imamoğlu –prefeito de Istambul e uma das figuras mais proeminentes da oposição– intensificou o clima de confronto político. Acusado pelo governo de corrupção e de supostos vínculos com organizações terroristas, sua prisão foi amplamente questionada tanto no plano nacional quanto internacional. Esse episódio desencadeou não apenas uma onda de protestos, mas também evidenciou a crescente instrumentalização do aparato judicial e o enfraquecimento do pluralismo político. Em consequência, a detenção de Imamoğlu e a crescente concentração de poder na presidência situam a Turquia em um ponto de inflexão no que diz respeito ao seu futuro político e institucional.

Bibliografía