Alianças estratégicas, convergência mediterrânea e projeção euro-asiática nas relações entre a Turquia e Espanha
Nas últimas décadas, Turquia e Espanha consolidaram uma relação bilateral que transcendeu a mera cordialidade diplomática para se configurar como uma parceria estratégica, sustentada pela complementaridade geopolítica, convergência institucional e uma rede econômica em expansão. Sua localização em extremos opostos do Mediterraneo lhes confere um valor singular como plataforma de conexão entre regiões, culturas e mercados, favorecendo um diálogo político contínuo e uma cooperação multidimensional em diversos níveis.
Essa dinâmica se estrutura sobre um longo percurso histórico de aproximação, desde o Tratado de Paz, Amizade e Comércio de 1782 até o Plano de Ação Conjunto de 1998. No entanto, foi nos últimos anos que a relação ganhou renovada densidade, impulsionada por interesses comuns na estabilização do entorno mediterraneo, na gestão de desafios transnacionais e na articulação de projetos conjuntos no marco europeu.
Um dos pilares mais sólidos dessa relação é o econômico. O comércio bilateral cresceu de forma sustentada, alcançando um volume de 16,65 bilhões de dólares em 2022, com expectativas de expansão. A Espanha figura não apenas como um dos principais parceiros comerciais da Turquia na União Europeia, mas também como seu maior investidor estrangeiro naquele mesmo ano. Esse fenômeno reflete uma integração progressiva baseada na complementaridade produtiva, na abertura recíproca dos mercados e no aproveitamento de instrumentos bilaterais e multilaterais que facilitam a cooperação econômica.
Nesse contexto, a modernização da União Aduaneira entre Turquia e a UE assume um papel estratégico. A Espanha tem apoiado essa atualização, compreendendo que ela melhoraria as condições de acesso ao mercado e aproximaria a Turquia dos padrões normativos e regulatórios europeus. Por meio de acordos específicos e memorandos de entendimento, instituições como o ICEX e o Escritório de Investimentos da Turquia reforçaram os canais de cooperação, gerando sinergias para atrair investimentos, fomentar plataformas de negócios conjuntas e promover o intercâmbio de boas práticas.
Para além do comércio e do investimento, o turismo e a cooperação cultural ampliaram o espectro da relação bilateral. Em 2022, cerca de 300 mil turistas espanhois visitaram a Turquia. As conexões aéreas diretas, o dinamismo do Instituto Cervantes em Istanbul e diversas iniciativas culturais fortaleceram os vínculos entre as sociedades, consolidando uma forma de diplomacia cultural que complementa a cooperação institucional. Esse componente humano reforça a estabilidade da relação ao enraizarla no tecido social.
Diplomacia mediterránea e convergencia política: cooperaçao no entorno regional e europeo
Embora o eixo econômico tenha ganhado destaque, a dimensão política e diplomática permanece essencial. A cooperação tem sido canalizada por meio de estruturas institucionais estáveis, como a Cúpula Intergovernamental Turquia-Espanha, instaurada em 2009, ou a Reuniões de Alto Nível, que viabilizam um diálogo estratégico regular. Esses espaços permitiram a concertação de posições em organismos multilaterais, a coordenação de iniciativas regionais e o planejamento conjunto em áreas como energia, segurança e cultura.
O apoio consistente da Espanha ao processo de adesão da Turquia à União Europeia integra essa convergência política. Desde o reconhecimento da Turquia como país candidato em 1999 até o início das negociações em 2005, a Espanha tem impulsionado uma abordagem estruturada de aproximação entre Ancara e Bruxelas. Apesar do atual estancamento do processo, marcado por tensões internas na UE e retrocessos democráticos na Turquia, Madri tem mantido uma postura construtiva, apostando na cooperação setorial, no diálogo renovado e na modernização do marco comercial como formas de preservar a vinculação estratégica com a Europa. Essa postura consolidou a Espanha como um parceiro equilibrado, capaz de mediar entre diversos interesses.
O Mediterraneo constitui outro espaço chave de colaboração. A participação conjunta em plataformas como a União para o Mediterraneo ou o Diálogo 5+5, assim como a cooperação em segurança marítima, reflete uma visão compartilhada sobre a necessidade de enfrentar os desafios regionais por meio da diplomacia preventiva, do desenvolvimento socioeconômico e da concertação multilateral. Enquanto a Turquia se consolidou como ator relevante na Política Europeia de Vizinhança, a Espanha aportou sua experiência como mediadora em processos de diálogo intercultural e cooperação regional.
Desafios compartilhados e projeções futuras: estabilidade, governança e oportunidade estratégica
Em um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, transformações tecnológicas e desafios globais –como a transição energética ou os fluxos migratórios– a aliança entre Turquia e Espanha projeta-se como um exemplo de cooperação adaptativa. A existência de mecanismos bilaterais consolidados e a complementaridade de suas projeções estratégicas reforçam as expectativas de uma relação de longo prazo, sustentada no pragmatismo diplomático e na ambição compartilhada.
Entretanto, o contexto atual impõe desafios significativos. Os retrocessos democráticos na Turquia, as tensões no Mediterraneo Oriental, a ascensão do populismo na Europa e as incertezas derivadas da guerra na Ucrânia testam a solidez das alianças bilaterais. Soma-se a isso um ambiente econômico global afetado pela desaceleração do crescimento, pela volatilidade financeira e pela ascensão do protecionismo. As políticas monetárias divergentes –com o Federal Reserve mantendo taxas estáveis ao menos até o segundo semestre de 2025, geram pressões diferenciadas sobre os fluxos de capital para mercados emergentes, incluindo a Turquia.
Apesar desse panorama, a economia turca demonstra sinais de resiliência. A revisão para cima das previsões de crescimento do PIB para 2025 (até 3,5%) reflete uma recuperação mais robusta do que o esperado, impulsionada pelo consumo interno e por um controle mais eficaz dos gastos públicos. O Banco Central da Turquia anunciou uma estratégia de contenção inflacionária que inclui medidas voltadas para pequenas e médias empresas. Projeta-se uma inflação de 29% para o final de 2025, com tendência de queda até 2026, o que contribui para gerar um ambiente macroeconômico mais previsível para os parceiros externos.
No entanto, essa recuperação convive com fragilidades estruturais que afetam diretamente o ambiente de negócios e as perspectivas de cooperação internacional. Segundo o Estudo Económico da Turquia 2025, elaborado pela OCDE, um dos principais riscos à sustentabilidade do crescimento é o enfraquecimento institucional. O relatório aponta a captura do Estado por redes clientelistas, a erosão dos controles democráticos e uma elevada percepção como fatores que minam a confiança dos investidores e enfraquecem a concorrência empresarial. atualmente, a Turquia ocupa a 115ª posição entre 180 países no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, seu pior desempenho em mais de uma década.
A ausência de um organismo anticorrupção independente, a opacidade nas contratações públicas e a subordinação do judiciário ao poder executivo não apenas desincentivam o investimento estranheiro direto, como também comprometem a equidade do mercado interno e dificultam a inovação. Essas condições impactam transversalmente setores-chave como infraestrutura, energia e transição digital, onde a cooperação com parceiros europeus –incluindo Espanha– exige marcos regulatórios previsíveis e sistemas de governança robustos.
Apesar desses desafios, abrem-se oportunidades para reforçar a cooperação colateral em campos estratégicos como a transformação verde e digital, o desenvolvimento de infraestrutura sustentável, a conectividade euroasiática e a gestão conjunta dos fluxos migratórios. Contudo, o aproveitamento dessas oportunidades dependerá, em grande medida, da evolução institucional na Turquia. A OCDE conclui que restaurar a integridade do setor público não é apenas essencial para melhorar a qualidade democrática, mas também um requisito fundamental para garantir um crescimento sustentável, inclusivo e compatível com os padrões europeus.
Ambas as economias compartilham um posicionamento geoestratégico que as qualifica como nós regionais de conexão: a Turquia entre Ásia, Europa e África; a Espanha entre a Europa e a América Latina. Essa condição lhes confere um papel relevante na reconfiguração da política externa europeia em um mundo multipolar e volátil. Em suma, a relação hispano-turca conta com uma base institucional sólida e uma trajetória comprovada de colaboração. sua consolidação futura dependerá da capacidade de ambos os atores em traduzir seus interesses comuns em estratégias sustentadas, adaptar-se com flexibilidade aos novos desafios globais e preservar uma arquitetura institucional que promova a transparência, segurança jurídica e a confiança mútua.
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