O detonador das revoltas foi, ao que parece, o assassinato do presidente da câmara de Uruapan, Carlos Alberto Manzo Rodríguez, no dia 1 de novembro, alvejado num ato público, supostamente por apostar na mão dura contra o crime organizado, após a detenção de um líder do cartel Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG), René Belmonte, alcunhado ‘El Rino’, presumível chefe do CJNG nessa região. A 14 de novembro, segundo o governador do estado de Michoacán, foram encontrados abandonados na caixa de um caminhão os corpos de dois dos três presumíveis implicados no assassinato do presidente da câmara (um deles contava com 16 anos de idade, sem esquecer que o autor Miguel Ángel “N”, tinha sido abatido na mesma noite do assassinato com 17 anos). Mas, ao que parece, esta não é a única motivação dos protestos que levam dias a produzir-se pela geografia mexicana.
Segundo análise do jornal El Milenio, a sociedade mexicana padeceu um ataque de “Infodemia”. Segundo este jornal a campanha de mobilização veio precedida, e foi impulsionada por 8 milhões de bots e contas falsas nas redes sociais, com a participação de 28 administradores localizados no estrangeiro.
A operação liga atores internacionais como a Atlas Network, organização ligada a grupos conservadores e ao empresário Ricardo Salinas Pliego (o terceiro empresário mais rico de México de acordo com a Forbes), que, segundo as contas do governo mexicano, está vinculado com operadores digitais da direita internacional. Também se mencionam figuras como Vicente Fox, o ex-presidente do México de 2000 a 2006 que agradece a marcha da geração Z: “Queremos um país com liberdade, paz e instituições de verdade”, segundo afirma aos media. E operadores digitais estrangeiros como Fernando Cerimedo, ex-assessor de Milei e apontado como cérebro do golpe de estado de Bolsonaro contra Lula no Brasil, Agustín Antonetti, um ativista cubano argentino, dinâmico nas redes sociais e no contexto libertário, como parte de uma estratégia paga que custou até 90 milhões de pesos.
Embora estas acusações apontem para um financiamento e manipulação digital com origem parcial no estrangeiro, não foram apresentadas evidências concretas de participação de serviços de inteligência estatais (como a CIA, FSB ou agências similares) nestas revoltas. Se bem que a participação destas agências de inteligência não costuma ser exposta a curto prazo, ainda que seja de supor que as mudanças no vizinho do sul seriam bem-vindas e promovidas por pessoa e instituições interpostas.
A longo prazo, a USAID financiou a organização “Mexicanos contra la Corrupción y la Impunidad” (MCCI) com mais de um milhão de dólares até 2024, o que foi criticado pelo governo atual por considerá-lo apoio a grupos “opositores”. No entanto, não há evidências de que este financiamento estivesse ligado diretamente aos protestos de 2025. Além disso, desde fevereiro de 2025, a administração de Donald Trump e Elon Musk anunciaram o encerramento e congelação de fundos da USAID, afetando ONGs no México que dependiam desse apoio, como a Casa Frida, que ajuda a migrantes e membros do movimento LGBTQ+.
A oposição, em contrapartida, acusa o governo de usar estas afirmações para desacreditar um movimento jovem e autêntico, que luta contra a insegurança cidadã e laboral, a violência de género, e a corrupção. Todos eles problemas nunca antes vistos nestas paragens. A oposição no México, representada principalmente pelo PAN e o PRI, tem um papel destacado na denúncia da insegurança e a corrupção, mas também é criticada por usar estas questões com fins políticos. Após o assassinato do presidente da câmara de Uruapan, líderes como Lilly Téllez (PAN) e Rubén Moreira (PRI) acusaram diretamente o governo de Claudia Sheinbaum de responsabilidade pela escalada de violência, com frases como “Quem matou Carlos Manzo? O governo, Morena”.

