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17 de Abril de 2020 S.T Guerra

Brasil entre o negacionismo e o retrocesso

Fonte: Xinhua

Após quase um ano e meio desde que se elegeu presidente do Brasil, a gestão de Jair Messias Bolsonaro está marcada por polêmicas, planos políticos e econômicos ineficazes, mudanças contínuas de gestores, perda de aliados, incremento da divisão, desigualdade social e atualmente pelo negacionismo crescente do líder de uma das dez maiores economias do planeta e país mais afetado pela pandemia causada pelo Convid19 na América Latina.

Com uma base eleitoral formada por militares e setores conservadores do Brasil, principalmente por grupos evangélicos, Bolsonaro continua fazendo eco do seu apodo popularizado durante as eleições, se autoproclamando um “Mito” na história recente do país e atribuindo todo resultado negativo que acumula à gestões anteriores (principalmente a gestão do PT com Lula e Dilma) e também a uma grande conspiração internacional de um mundo denominado por ele  “comunista” onde até mesmo líderes da direita de diversos países, tais como Angela Merkel, já foram classificados como políticos de “esquerda”.

Bolsonaro, cujo mentor é o astrólogo Olavo de Carvalho, também autoproclamado filósofo erradicado nos Estados Unidos, é uma amálgama de diversas teorias conspiratórias e Fake News.  No seu discurso, temas como o Terraplanismo, Conspiração Comunista Mundial, Negacionismo Científico em relação ao Aquecimento Global, Vacinas e Doenças (tais como o Coronavirus), Segregação Racial e Social e Fundamentalismo Cristão são recorrentes e presentes também no seu séquito de gestores e seguidores.  Exemplos tais como o Ministro de Educação, Abraham Weintrub, que defende o estudo do Criacionismo, ou o Ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo,  que defende a não existência do Aquecimento Global, mas sim uma conspiração mundial, deturpam cada vez mais a já prejudicada imagem do país dentro da Comunidade Internacional.

A tão prometida mudança política e econômica do país, jamais se concretizou e mesmo que no final do ano de 2019 o Brasil emitiu um leve sinal de recuperação econômica, está se deveu somente ao incremento dos preços das commodities no cenário internacional e seu impacto em uma economia cuja moeda está entre as 5 mais desvalorizada do globo, não sendo fruto da gestão interna paralisada diante dos escândalos e desacordos.

Porém o crescimento da desigualdade social, aumento da pobreza e volta da fome são sem dúvidas reflexos de um país decadente. Reformas prometidas em tempos de campanha tais como a previdenciária, aumentou o tempo de contribuição dos cidadãos em um cenário de alto desemprego, elevada rotatividade laboral e contratações intermitentes, porém não afetou aos militares e altos cargos políticos, mantendo a desigualdade social e os privilégios dos grupos que geram maiores gastos públicos e que apoiam Bolsonaro.

Desastres ambientais tais como os incêndios na Amazônia ou o derramamento de petróleo no Nordeste, foram minimizados e recentemente o presidente, demitiu ao diretor do IBAMA, Olivaldi Azevedo,  por uma ação que este realizou em contra dos madeireiros em território indígena, sendo outro pilar fundamental de apoio para a gestão de Bolsonaro, o agronegócio e o extrativismo em oposição a preservação e demarcação dos territórios indigenas.

Na área social a redução do orçamento em áreas tais como a saúde, educação e programas sociais, levou o país a ter índices de 30 anos atrás. Com incremento exponencial da miséria e aumento da concentração da riqueza.

No âmbito criminal, todas as investigações que relacionavam a família Bolsonaro com os grupos paramilitares e líderes do narcotráfico do Rio de Janeiro, foram paralisadas ou cerceadas, testemunhas chaves que relacionavam diretamente ao filho do presidente com os assassinos da vereadora e ativista Marielle Franco, desapareceram ou morreram. Ainda com comprovada relação empregatícia de membros desses grupos em gabinetes de Flávio Bolsonaro, também político e filho de Bolsonaro.

Outro membro do clã Bolsonaro, e atualmente deputado federal ganhou forte expressão em suas polemicas manifestações que foram desde ofensas ao filho do atual presidente da Argentina por sua orientação sexual, à acusações feitas contra a China em relação a pandemia de Coronavirus que teve uma forte reprimenda da embaixada do país asiático, principal parceiro econômico e investidor no Brasil.
Diversas foram as denúncias realizadas na Comissão Internacional de Direitos Humanos envolvendo ao presidente do Brasil e seus filhos, que atuam no país como se fosse uma extensão de suas relações pessoais. Porém poucas foram as repercussões, salvo a reiterada rejeição internacional que aos poucos transforma a Jair Bolsonaro em um pária nas Relações Internacionais e ao cancelamento de contratos internacionais e fundos de ajuda para a preservação da selva amazônica.

Porém recentemente, o papel de Jair Bolsonaro, em sua estrambótica gestão, ganhou um novo episodio que preocupa as Nações Unidas e abala a pouca estabilidade política no país. O negacionismo do presidente brasileiro em relação a Pandemia de Coronavirus, seus discursos e tentativas de obrigar aos Estados da Federação à cancelar a quarentena decretada por diversos governadores, tais como João Dória de São Paulo (capital financeira e estado com maior população do Brasil) até então considerado aliado político, levaram o Brasil a um estado de anomia.

Bolsonaro afirma uma e outra vez que se trata somente de uma conspiração internacional para quebrar a economia mundial liderada pela China para instaurar o socialismo no mundo. Que se trata somente de uma gripezinha e que é normal o fato de que pessoas idosas morram, assim como soldados morrem nas guerras.

O ápice da polêmica chegou no dia 16 de abril com a demissão do Ministro de Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que contra a vontade expressa do presidente, seguia as determinações da Organização Mundial da Saúde no combate à pandemia e apoiava a paralização e o confinamento da população. Substituído pelo sr. Nelson Teich, que já declarou estar alinhado com o presidente e que o governo não deveria realizar gastos excessivos a quem já está destinado a falecer.

A negropolítica e o negacionismo da gestão Bolsonaro se expressa em seu ponto auge, de forma escancarada e sem discrição alguma. Com um país dividido, onde os apoiadores do presidente, fazem manifestações contra as medias de quarentena, desfilando em carros de luxo e se ajoelham nas avenidas formando longas fileiras de pessoas rezando para que Deus resolva o problema... Em um país que segundo a OMS pode se transformar no maior foco da doença e que atualmente não possui meios para cuidar de sua população...

Tempo exterior: Revista de análise e estudos internacionais