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29 de Xuño de 2020 S.T Guerra

Galegos no Brasil, a comunidade silenciada

Observatorio Galego da Lusofonía

No Brasil é comum identificar as diferentes comunidades de imigrantes e seus descendentes, assim como as contribuições destas no processo de formação identitária, econômica e política do país e seu posterior relacionamento com os países emissários.

Comunidades como a japonesa, possuí o maior número de cidadãos fora do Japão, assim mesmo a comunidade italiana somente presente na cidade de São Paulo, sem considerar outras cidades que também receberam italianos, soma a terceira maior população urbana “da Itália” perdendo somente para Roma e Milão. Alemães e holandeses mantêm seu idioma e dialetos (muitos até mesmo deixaram de existir na Europa), sem embargo a comunidade espanhola, composta majoritariamente por galegos, estremenhos e andaluzes é pouco visível, ainda que, mais de um brasileiro sabe que seus antepassados são espanhóis ou que seu sobrenome tem origem espanhola.

Durante o ciclo das grandes migrações no Brasil que começou no final do século XIX e se manteve durante metade do século XX, o país recebeu mais de 3,5 milhões de imigrantes, sendo a comunidade espanhola a terceira mais importantes, após a portuguesa e italiana (VILLARES, 1996, p. 129).

Dos mais de 500 mil espanhóis chegados ao Brasil durante as grandes migrações, 60 a 70% eram galegos que utilizavam a rota de Portugal para chegar as terras brasileiras (VILLARES, 1996). Sem embargo o histórico da migração galega no Brasil começou bem antes.

Erica Sarmiento, no seu estudo sobre a migração galega publicado em 2006 destaca que:

[...] antes do início da emigración masiva a Brasil (1890), xa había galegos que non só estaban estabelecidos na capital, cos seus negocios, senón que tamén daban traballo aos compatriotas da mesma aldea ou municipio. Podemos dicir  que a pesar de non seren maioritarios, foron os pioneros e sentaron as bases do que sería a futura emigración galega a Río: espontánea, baseada en lazos de parentesco e dedicada principalmente ao ramo do comercio e hostelería.

(SARMIENTO, 2006, p. 42)

Assim mesmo, a diferença de outras comunidades, os galegos continuaram de forma intermitente com o fluxo de migração ao Brasil, tanto durante o período da ditadura espanhola (1936-1975) como na a Crise Financeira Internacional (2007-2008) e por último na Crise do Mediterrâneo (2008-2014) que assolou a economia espanhola.

Ainda assim, quando comparada com outras comunidades é difícil perceber os traços desse fluxo migratório no Brasil e seu impacto nas relações entre o país e a Galiza. Não existe um memorial da migração galega como no caso da alemã, japonesa ou até polaca, também a produção literária dos descendentes dessa comunidade é praticamente inexistente, assim como seu impacto na gastronomia ou nas artes. Em muitos casos houve uma integração das costumes galegas as portuguesas, ou uma superposição da cultura andaluza que se destacava por se diferenciar mais da brasileira (motivo que explica o fato de que, mesmo os galegos sendo maioria no fluxo migratório, o brasileiro associa a Espanha ao folclore andaluz).

Existem dois motivos pelos quais podemos justificar a ausência de uma maior expressão da comunidade galega no Brasil. O primeiro se deve ao fato de que as relações sempre estiveram centralizadas entre o Governo Brasileiro e o Governo Central de Madri e o segundo se deve a integração existente nessa comunidade devido a suas semelhanças culturais e linguísticas com o Brasil.

Os costumes assim como o idioma galego, ficaram reservados a vida intima dos imigrantes e muitos passaram a adotar costumes do Brasil, somente aqueles que notavelmente eram distintos ao resto dos imigrantes e dos nativos, eram de fato reconhecidos por isso, sendo a expressão “Galego” usada no Brasil para se referir a uma pessoa de cabelos e olhos claros, ou seja a um cidadão de etnia diferente e não de nacionalidade distinta.

Com a democratização da Espanha houve uma reversão do fluxo migratório, porém muitos dos galegos e seus descendentes eram e são vistos até hoje como imigrantes pela própria sociedade galega, que desconhece a existência e importância desse fluxo migratório histórico e as relações com o Brasil.

A historiografia tanto brasileira, quanto a difundida pela Espanha, minimiza por completo as relações históricas entre o Brasil e a Galiza, e da própria Galiza com a comunidade lusófona como berço das bases linguísticas que evoluíram para o português.

Para muitos brasileiros o galego é apenas um dialeto do espanhol ou um “português mal falado” quando na verdade é resquício de um idioma comum que unia Galiza com Portugal e todos os demais países lusófonos, entre eles o próprio Brasil.

Assim mesmo a feminização do fluxo migratório brasileiro na Galiza, algo comum dos processos migratórios do fluxo sul-sul (Oso, L. 2008) fomentou um discurso distorcido e muitas vezes discriminatório e xenofóbico, não havendo uma aproximação em quanto a comunidade brasileira presente na Galiza, os descendente galegos retornados e as políticas culturais e de integração.

Até mesmo as discussões referentes a inclusão da Galiza na CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa, ou a reforma da normativa linguística do galego, foram exclusivas de um público e sem a participação dos autores de fato dessa realidade.

A comunidade galega fora silenciada no Brasil e silencia a comunidade brasileira ao não se aproximar da mesma, mantendo uma barreira com fortes nuances castelhano-centristas.

E até mesmo na exclusão, ambas comunidades se parecem...

 

Referências:

OSO, L. (2008): “Mujeres latinoamericanas en España y Trabajo sexual”, in Gioconda Herrera y Jacques Ramírez (Comp.), Migraciones latinoamericanas  y ciudadanía, Ecuador: FLACSO.

CONSELLO DA CULTURA GALEGA. O Consello da Cultura recuperará documentos da emigración ao Brasil. culturagalega.org. Santiago de Compostela.

Disponível em: <http://www.culturagalega.org/noticia.php?id=16796>

FAUSTO, B. História Concisa do Brasil : USP, 2001. 

OLIVEIRA, L. L. Nós e eles: relações culturais entre brasileiros e imigrantes. Rio de Janeiro: FGV, 2006. 

______ O Brasil dos imigrantes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. (Coleção Descobrindo o Brasil, coord. Celso Castro)

PERES, E. P. A inexistência da terra firme: A imigração galega em São Paulo, 1946-1964. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo/ Fapesp/ Imprensa Oficial do Estado, 2003. 

PETRONE, M. T. S. O imigrante e a pequena propriedade (1824-1930) o PauloBrasiliense, 1982. 

QUINTELA, A. C. A Aculturação e os Galegos do Brasil: O Vazio Galeguista. Santiago de Compostela. 2009. 938 f. Tese (Doutorado em Filologia Galega, área de Português) – Faculdade de Filologia, Universidade de Santiago de Compostela. 2009.

Disponível em:dspace.usc.es/bitstream/10347/2596/1/9788498872583_content.pdf

SARMIENTO, E. O outro Río: A emigración galega a Río de Xaneiro. Santa Comba: tresCtres Editores. 2006. 

SOUZA, I. I. Espanhóis: história e engajamento. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006. (Série Imigrantes no Brasil, coord. Maria Luiza Tucci Carneiro) 

VILLARES, R. Historia da emigración galega a América. Xunta de Galicia. 1996.

Tempo exterior: Revista de análise e estudos internacionais