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16 de Setembro de 2022 Gaspar Jorge

O coronavírus um dia acaba, a pobreza brasileira não

O artigo fai parte da publicación impulsada polo IGADI no 2020 "O Mundo Desde Aquí: A Pandemia da Covid-19"
Capa da publicación impulsada polo IGADI no 2020

O golpe mais baixo da chegada do coronavírus no Brasil foi ele ter chegado no começo do ano, nem in medias res e nem no final. Chegou quando ainda tínhamos muito frescas as nossas resoluções de ano novo, quando ainda tínhamos areia no cesto de roupa suja de quando pulamos as nove ondas em homenagem à Iemanjá à meia noite nas praias do Rio de Janeiro, quando estávamos no auge do nosso carnaval, quando tudo é festa, é liberdade, é colorido e parece que o mundo está reunido aqui: entre a praia e o morro.

Nos últimos onze meses não houve um dia sequer no qual eu não tenha falado sobre a pandemia ou que não tenha sido atingida por alguma notícia através da mídia. E ainda assim, aqui no Brasil, a pandemia não é protagonista das nossas vidas. Num primeiro momento, o Covid-19 parecia uma ameaça distante e um pouco fictícia. Quando aprendemos sobre as medidas emergenciais -distanciamento social, o confinamento, as precauções - nos demos conta de que já estávamos contaminados pela desigualdade e confinados num Brasil para poucos. Contaminados por um governo que não se responsabilizou pelo nosso bem estar, contaminados pela segregação entre os que podiam deixar de trabalhar para seguir as regras de quarentena e aqueles que as infringiram porque tinham mais medo de morrerem de fome do que de um vírus. E experienciamos um luto individual: dos nossos planos, dos nossos sonhos, da nossa liberdade. E o egoísmo da individualidade nos foi roubado porque em quanto nossas casas caíam (com a redução dos salários, com a precarização dos serviços, com um auxílio emergencial que não nos permitia comprar nosso sossego) olhávamos para o lado e nos dávamos conta de que algumas pessoas nem tinham casa para cair sobre suas cabeças. E de repente, a ameaça invisível nos espreita, porque ela enxerga a nós melhor do que a nós mesmos: óbito de um vizinho de um conhecido, óbito do homem que trabalhou na sua rua durante dez anos, do seu colega da universidade. E a pandemia parece tentacular: se não morremos pelo vírus, adoecemos pela instabilidade emocional e psicológica, por causa da nossa demasiada humanidade que não nos permite aversão total à vida social, pelas contas que não fecham no final do mês e você precisa decidir se paga o cartão ou a internet, pela sua casa que parece um útero hostil e amaldiçoado e você se pergunta se sempre foi assim tão desconfortável viver numa casa pequena com mais pessoas que cômodos, com as paredes mofadas, sem grandes janelas, será que nunca entrou luz aqui antes? Desde pequena ouço meu pai dizer que o Brasil é um dos países mais ricos do mundo mas que é povoado por ladrões. O coronavírus pode ser invisível, mas quem está nos roubando não, roubam-nos diante dos nossos olhos e do de vocês também. E este foi o maior saque da história brasileira: roubaram o nosso amanhã e um tempo que nem mesmo as pessoas mais ricas podem comprar de volta e nenhuma vacina poderá nos ressarcir. Pela primeira vez sentimos que o Brasil é pequeno e frágil, não se parece com o gigante do hino patriótico. O Brasil é uma formiguinha aceitando migalhas e sendo enganado por uma trilha de açúcar envenenado pelo (des)governo atual, a pandemia no bom dialeto carioca “é fichinha”, difícil mesmo é o dia-a-dia da desigualdade é sentir que vivemos num país de “ananos” como nos poemas de Celso Emilio Ferreiro. O luto é constante, o tic tac do relógio implacável, 11 meses, 161 mil vidas e todas as promessas de um bom ano boiando numa lista de papel no mar de Copacabana.

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Tempo exterior: Revista de análise e estudos internacionais