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7 de Xullo de 2020 S.T Guerra

VOXsolnarismo, semelhanças entre o discurso de Bolsonaro e do partido VOX

Fotografía: Axencia EFE

O presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, ganhou repercussão internacional ao longo de sua campanha presidencial e posterior começo de mandato, devido ao seu discurso de extrema direita, com uma perigosa aura neofascista e autoritária. Além de seu crescente negacionismo em face aos temas de relevância internacional e de direitos humanos.

Mesmo antes de dar início a corrida presidencial, o então deputado Jair Bolsonaro, era uma personagem polêmica dentro do cenário político brasileiro. Sua carreira de 30 anos como parlamentar, era mais reconhecida devido aos seus discursos, que aos projetos aprovados (sendo somente 2 projetos ao longo de todos os mandatos).

Bolsonaro fazia parte do chamado baixo clero político do Brasil, um ex-militar afastado devido a sua saúde mental (conforme laudo médico do exército brasileiro) que constantemente fazia aparições televisivas criticando aos direitos humanos, casamento igualitário, cotas raciais e políticas sociais. 

Seu aumento de popularidade coincidiu com a expansão do discurso de extrema direita no mundo, reforçado pela crise institucional instaurada no Brasil (devido aos escândalos de corrupção envolvendo as empresas estatais) e aos efeitos da crise financeira internacional, que também teve eco em países como Estados Unidos com a eleição de Donald Trump, Itália,  Filipinas, Hungria, Turquia, entre outros... e que quase levou a extrema direita ao poder em várias nações da Europa.

Existe um forte paralelismo entre a ascensão do Bolsonarismo e o crescimento de partidos que comungam dos mesmos ideais, tais como o partido VOX na Espanha.

Quando comparados, suas trajetórias são semelhantes, já que o VOX ganhou força na Espanha, justamente após a Crise Financeira Internacional e os efeitos da crise institucional devido aos escândalos de corrupção do Partido Popular e a instabilidade governamental do país.

Porém as semelhanças não param por aí. Existem pontos de intersecção entre o discurso defendido por Jair Bolsonaro e por Santiago Abascal (Presidente do Vox), sustentados por uma visão conservadora e muitas vezes deturpada da realidade. Construídos sobre o ataque às minorias, aos direitos humanos e com um chamado constante a mobilização dos “cidadãos de bem”, se reforçando em um suposto nacionalismo e uma restauração do orgulho patriota, com o apoio de setores conservadores da população e de símbolos nacionais.

Da mesma forma que houve uma apropriação dos símbolos representativos do Brasil (tais como a bandeira, as cores verde e amarela ou o hino nacional), as manifestações do VOX, se caracterizam pelo uso da bandeira, das cores e do hino espanhol, assim como elementos presentes durante a ditadura que sofreram um revisionismo histórico a favor da mensagem do partido, da mesma forma que acontece no Brasil.

Em ambos os casos, as semelhanças ao fascismo e o apoio de grupos extremistas na sua base eleitoral, não é admitida, embora sejam perceptíveis em suas manifestações e discursos, refletindo o modelo de identificação fascista exposto por Umberto Eco (Eco, 1995).

Assim mesmo a deturpação de informações oficiais, a favor da construção discursiva é algo como comum nos dois casos.  Bolsonaro por um lado inflou os números referentes aos programas sociais e benefícios para os refugiados e minorias e até defendeu a criação de um campo de refugiados, para reforçar uma suposta má distribuição e efeitos negativos da migração venezuelana, enquanto Abascal usou a mesma estratégia, porém utilizando como exemplo a população imigrante. Ainda quando, no Brasil a adesão aos programas sociais se concentram nos setores de baixa renda e refugiados e imigrantes  não compõe nem 1% do total dos benefícios (FGV,2019) e na Espanha as ajudas econômicas à população imigrante não são exclusivas e o total não passa de 2% (Seguridad Social, 2018).

“A criação de um campo de refugiados, para atender aos venezuelanos que fogem do seu país, porque do jeito que estão fugindo, tem gente também que não queremos no Brasil".

Bolsonaro, 2018

 "Que se prohiba cualquier tipo de ayuda social a la inmigración. No tenemos por qué estar obligados a recibir cualquier tipo de inmigración" 

Santiago Abascal, 2019

Tanto o Brasil como a Espanha, são países com um importante histórico migratório, além da existência de laços históricos com diversas nações e obrigações advindas de acordos internacionais assinados por ambos.

Outro fator de encontro nos dois discursos faz referência aos direitos da população LGBT e a uma suposta Ideologia de Gênero que destrói a família tradicional e coloca em perigo os valores morais (cristãos) da sociedade tanto brasileira como espanhola.

“Os gays não são semideuses. A maioria é fruto do consumo de drogas”

Jair Bolsonaro, 2014.

"Nos oponemos a la ideología de género"

Santiago Abascal, 2018.

A Espanha reconhece o casamento igualitário desde 2005 e o Brasil desde 2011, sendo uma referência no marco jurídico dos países Ibero-americanos.

Assim mesmo, ambos os líderes também são contrários ao feminismo e a luta pela igualdade entre o homem e a mulher, considerando este, um movimento opressor. Embora os dois países possuem assimetrias em relação a inserção feminina no mercado de trabalho, elevada taxa de feminicídios e agressões e violência doméstica.

 "Não empregaria mulheres com o mesmo salário”

Jair Bolsonaro, 2016.

"Se criminaliza a la mitad de la población por su sexo con las leyes totalitarias de ideología de género"

Santiago Abascal, 2019

Sem embargo a força de trabalho feminino é importante para o consumo e economia interna em ambas nações.

A xenofobia, homofobia, misoginia são constantes no discurso e Bolsonaro e do VOX, contribuindo com uma crescente polarização da sociedade que se contrapõe ao discurso de união nacionalista e cujos reflexos são visíveis no tacrescente estado de anomia onde existe uma maior reverberação deste.

Outros pontos em comum são o uso do apoio de setores militares e das forças de segurança que vivem submersos no atrito social, derivando em um alvo fácil de alcançar, já que existe uma constante cacofonia de que antes as coisas eram melhores e que o tradicional e conservador proporciona a coesão social.

Sendo assim, e mesmo diante de uma constante negação, nunca é demais refletir sobre o fascismo e como podemos nos encontrar diante de uma nova face deste. Reiterando os principais pontos desenvolvidos por Umberto Eco e recolhidos por Cândido Grzybowski como uma alerta:

O Culto da tradição – como se toda a verdade já estivesse revelada há muito tempo e o que precisamos é ser fiéis a ela. O tradicionalismo é uma espécie de cartilha na disputa de hegemonia fascista sobre corações e mentes, são impregnados de uma veneração da verdade já revelada em escritos sagrados e de valores espirituais mais tradicionais do cristianismo. “Deus, pátria, família e propriedade”.

Repulsa ao modernismo – que leva a considerar as conquistas humanas em termos de direitos e de emancipação social como perversidades da ordem natural. Nega-se, em consequência, a racionalidade e, com ela, toda a ciência e a tecnologia. Não falta gente com tal forma de pensar no governo e seus seguidores. Para eles, direitos iguais são um absurdo. Mudança climática é uma farsa, etc.

Culto da ação pela ação – fazer e agir, acima de tudo. Como diz Eco, para fascistas “pensar é uma forma de castração”. Daí a atitude de suspeita à cultura, pois é vista como algo crítico. Em consequência, todo mundo intelectual é suspeito.

Não aceitação do pensamento crítico – pensar criticamente é fazer distinções e isto é sinal de modernidade, pois o desacordo é base do avanço do conhecimento científico. O fascismo eterno considera a divergência como traição. Deve-se aceitar a verdade da ordem estabelecida

O racismo na essência – segundo Eco, com medo da diferença, o fascismo a explora e potencializa em nome da busca e da imposição do consenso. Os e as diferentes não são bem vindos. Por isso, o fascismo eterno é essencialmente racista e xenofóbico.

O apelo aos precarizados e frustrados – todos os fascismos históricos fizeram apelo aos grupos sociais que sofrem frustração e se sentem desleixados pela política. As mudanças no mundo do trabalho, promovidas pela globalização econômica. migrações, são terreno fértil para o fascismo.

O nacionalismo como identidade social – nação como lugar de origem, com os seus símbolos. Os e as que não se identificam com isso são inimigos da nação. Portanto, devem ser excluídos. Podem ser os nascidos fora da nação, como os imigrantes, ou por se articularem com forças externas. O nacionalismo vulgar é o cimento agregador de qualquer fascismo.

A vida como guerra permanente – no fascismo, a gente não luta pela vida, liberdade, bem viver, mas vive para lutar. A violência é aceita como regra e a busca de paz uma panaceia.

O heroísmo como norma – o herói, um ser excepcional, sem medo da morte, está em todas as mitologias. “O Homem que fala o que pensa, que fala a verdade”.

O machismo como espécie de virtude, o fascismo potencializa as relações de poder na questão sexual, segundo Umberto Eco. Aqui também não faltam manifestações de patriarcalismo e machismo, com intolerância com o que é considerado divergente da norma em questões sexuais. Não há lugar para a liberdade de opção sexual e de gênero.

O líder se apresenta como intérprete único da vontade comum – o povo é o seu povo, o seu entendimento do que seja o povo e sua vontade comum. Como diz Eco, estamos diante de um populismo de ficção (Cândido Grzybowski. IBASE 2019)

De modo que podemos refazer um ditado comum na Galiza e presente em algumas regioes no Brasil... “Eu non creo nos fascistas, mais habelos, hainos”

Referências:

GRZYBOWSKI, Cândido. IBASE, 2019.

MOPEZ, Victor. “ Las 12 frases más peligrosas de Santiago Abascal, Líder de Vox”. Los Replicantes ,2018.

“As 10 Frases mais terríveis de Bolsonaro”. Diário da Esquerda, 2019

Eco, Umberto. “los 14 síntomas del Fascismo Eterno. Bitacora, 1995.

Tempo exterior: Revista de análise e estudos internacionais